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João

Na História, há mitos, falsificações construídas segundo as leituras políticas dos historiadores. Aliás, não será tarefa do historiador fazer uma interpretação dessa vasta e multifacetada realidade que é a vida humana no passado? ora, essa interpretação, por muita isenção que se pretenda, nunca é totalmente isenta. A questão ganha outros foros quando a História é reescrita em função dos objectivos políticos, sobretudo de a construção de uma dada identidade. Muita da História foi reescrita no período romântico, quando os países recém-idependentes, necessitavam de criar as bases da sua reafirmação, as justificações que alimentavam os desejos de independência. Isso vê-se em quase todos os países europeus que recuperaram a sua independência no período pós-impérios, desde o Napoleónico, ao Austro-Hungaro ou Otomano. Mas também em todos os jovens países latino americanos.
É o discurso nacionalista que cria os grandes heróis, que recria as grandes gestas, com a função de alicerçar o ideal colectivo da Nação.
Sobre as falsificações da História, leia-se Marc Ferro.
Este episódio sobre o Grito do Iripanga me lembra a célebre frase do presidente português Sidónio Pais, assassinado a 14 de Dzembro de 1918, na Estação do Rossio. Sidónio ia partir para o Porto para se avistar com a Junta Militar local, que andava agitada. de súbito, o anarquista alentejano da aldeia do Garvão, José Júlio da Costa, empurra os polícias do cordão de segurança do presidente e desfecha dois tiros de pistola quase à queima-roupa. Ao segundo tiro, Sidónio cai redondo, praticamente em coma. Chega já morto ao hospital.
Arnaldo Ferreira é o reporter do jornal 'O Século', destacado para fazer a cobertura da partida do presidente. No entanto, entretem-se numa tasca e falha os acontecimentos. Quando chega à redacção, já a notícia da morte do Presidente é conhecida e o chefe de redacção lhe pergunta se ele tem a notícia. Ele, que ignorava tudo, não se desfaz e diz que sim. Vai para o seu 'bureau' e telefona a um jornalista amigo do 'Diário de Notícias', que o põe a par dos acontecimentos. Com base nesse relato, Arnaldo compõe a notícia e a entrega ao chefe de redacção. Este quando a lê, lhe pergunta: "Mas Sidónio não disse nada?" "Ah sim! Disse:'Morro bem! Salvém a Pátria!'". Hoje, melhor dizendo, durante a vigência do regime de Salazar, era tido como verdade que Sidónio dissera aquilo ao morrer...

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